
Rose Marie Inojosa, Advisor CTI e professora Centro Carta da Terra em Educação
Esta é, de fato, uma sociedade de risco, um momento em que tempestades e incêndios reais e virtuais se avolumam no horizonte da vida na Terra, extinguindo ou pondo em risco muitas espécies, inclusive a humana. Tem sido um processo com muito sofrimento, que chega primeiro aos mais vulneráveis, mas tem alcançado e alcançará, inevitavelmente, a todos, até os néscios que se julgam em segurança.
Durante décadas, a humanidade deu alguns passos em direção ao respeito à diferentes formas de vida do Planeta e à diversidade humana e empreendeu ações assistencialistas e emancipatórias para populações vulneráveis. Traçou um caminho em progresso, embora fragmentado em grupos dedicados a aspectos específicos dos nossos desafios compartilhados. Nessa trajetória, contudo, não logrou o enfrentamento articulado dos nós nucleares: a crescente desigualdade e a continuidade de práticas que alimentam o aquecimento global e a mudança climática. Parece que, ao nos dispersamos, perdemos potência.
No tempo presente, emergiu uma reação subterrânea perturbadora, portadora de grandes retrocessos em relação à pauta que busca disseminar a compreensão e pratica do respeito à vida. Tem trazido mais guerras, negacionismo climático e da Ciência em geral, desprezo pela diversidade, apreço à concentração de riquezas, violências, aprofundamento da desigualdade e o uso intensivo de redes sociais para disseminar mentiras, ódio e preconceitos.
Muitas botas têm pisoteado as sementes de transformação que parte da humanidade vinha, pacientemente, cultivando. Estraçalham os campos, debocham dos esforços.
Neste momento estamos numa encruzilhada entre a barbárie anunciada, de um mundo de alguns contra todos, ou a retomada e o aprofundamento corajoso da trajetória do respeito à vida.
Os que apostamos na vida, precisamos, para uma ação consistente e potente, de um fundamento ético que nos mobilize e aliance em torno de um compromisso comum e que considere a interrelação de todas as dimensões da vida sobre a Terra como possibilidade de sua regeneração e sustentabilidade.
A proposta ética da Carta da Terra pode suprir esse papel, pois tem em seu cerne o ponto crucial para mobilização: o respeito à vida, a todos os seres e a todas as formas e modos de vida. E articula a dimensão da regeneração ecológica à justiça social, econômica e ecológica e à democracia, paz e não-violência. É uma abordagem compreensiva da interdependência e da necessidade de um olhar integrador, que contempla a complexidade da vida e deste momento histórico.
A Carta da Terra, como uma semente da transformação, lançada há 25 anos, está pronta para este momento crucial da humanidade. O solo está regado por sangue e lágrimas. É necessária uma ação humana coletiva, intencional, potente e responsável que aqueça essa semente e possibilite sua germinação transformadora.

